‘Vaidade e opinião’, pelo jornalista Marcelo Teixeira

“A vaidade é o meu pecado favorito”. Esta é a última frase do filme O Advogado do Diabo (1997). Ela é dita pelo personagem John Milton (Al Pacino), que, na trama, personifica Lúcifer. Filha do orgulho – a raiz de todos os pecados –, de todas as fraquezas humanas a vaidade é a que ele mais explora. E hoje, agora, a cada instante, o tempo todo, ela tem mais um campo fértil para ser cultivada: as redes sociais.

Por um ou outro motivo, existem pessoas para quem é imperativo aparecer, ser visto, notado, percebido. Para elas, o Facebook, Instagram, WhatsApp, Snapchat, Twitter, YouTube etc., são canais para colocar planos em prática, atingir objetivos, emitir opinião, reclamar, atacar, defender, extravasar. O problema é que, como qualquer coisa na vida, o exagero leva ao desequilíbrio, e o desvirtuamento da ferramenta resulta em prejuízos.

E dá-lhe um número incontável de posts da rotina, de reclamações do trabalho, de fuxico sobre colegas da escola, da roupa do dia, do prato do almoço ou de exibições de localização: na academia, na faculdade, no hospital ou na balada. Isso sem contar as selfies, incluindo as de pós-sexo.

É bem verdade que uma das necessidades mais básicas do ser humano é amar e ser amado. Nas redes sociais, entretanto, a realização desse desejo se manifesta por meio dos likes, e nem sempre (para não dizer quase nunca) essa popularidade e empatia ocorre no plano real.

Em entrevista para o UOL, o professor da ESPM-SP (Campus São Paulo da Escola Superior de Propaganda e Marketing), Pedro Luiz Ribeiro de Santi, diz que postar constantemente acontecimentos particulares é um sinal de autoafirmação. “Antes, as pessoas obtinham reconhecimento social através da família ou do trabalho. Hoje, esse reconhecimento vem através das curtidas em um post. Os ‘likes’ parecem dar sentido à existência”, explica.

Exceção feita às postagens notadamente de mau gosto e execradas de forma unânime, acredito que a situação se torna ainda mais crítica quando são expostas opiniões sobre temas polêmicos, como pena de morte, aborto, virgindade, religião, desarmamento, militares x direitos humanos, PSDB x PT, corrupção, Moro x Lula, luta de classes, terceirização, e por aí vai.

A opinião gratuita é o princípio do conflito (e não estou fazendo aqui juízo de valor), pois dá ao receptor da mensagem o direito de se expressar, contrariamente, inclusive. E pedir bom senso em debate sobre controvérsias quase sempre é pedir demais. No final das contas, quem fala o que quer… Tem também a “boca fechada não entra mosca”. E por que a opinião é emitida sem ser solicitada? Por várias razões, desde o interesse político ou comercial, à compensação de frustrações ou à simples e incontrolável necessidade de se expressar. Em todas essas situações, sempre com uma dose generosa de vaidade.

A consequência é a crítica dos enfurecidos de plantão, a deselegância dos mal-educados, a cólera dos extremistas, o sofrimento do autor em ver sua proposta e seu nome julgados. Cada cabeça, uma sentença. Na minha, quem quer se preservar, ao menos minimamente, deve ter cuidado com aquilo que externa, ainda mais nas redes sociais, caso contrário pode ser fisgado pelo anzol lançado (pelos outros ou pelo seu próprio anzol), aquele preferido por John Milton.

*Marcelo Teixeira é jornalista e empresário do setor de comunicação corporativa

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