‘O lixo da ignorância no latão do Ensino Médio’

Paulo Freire, um dos mais renomados educadores do Brasil, ensinou certa vez que sem a educação a sociedade não muda. Qualquer perspectiva para a evolução social, política e econômica de um povo passa pela detenção do saber e as reações a partir dele, para o bem e para o mal.

Se a educação tem o poder de mudar a sociedade ela precisa passar por constantes análises e discussões a respeito de como o ensino contempla as demandas de crianças, jovens e adultos.  Evidente que metodologias de até mesmo 15 anos atrás já não são atrativas e tampouco eficazes num mundo com tecnologias avançadas (e arrebatadoras) a cada momento.

Todavia, a discussão para avaliar e melhorar o ensino,  especialmente o da tão macerada rede pública, não pode ser um mero e mesquinho aperto de caneta e assinatura em um calhamaço. A discussão com especialistas e a sociedade civil é um caminho que, se levado a sério, produz grandes coisas. Políticos geralmente não entendem de assuntos tão específicos.

É o que se percebe com a desastrosa e tendenciosa reforma do Ensino Médio, executada pelo governo Temer e aprovada na calada da noite de 8 de fevereiro no Senado, após menos de cinco meses de discussão no Legislativo. A medida provisória agora depende da canetada do presidente para se tornar uma realidade num prazo de cinco anos.

Tudo que começa mal termina pior. Não é uma medida urgente que vai sanar a evasão de 19% dos estudantes do Ensino Médio (dados de 2014) ou que irá debater a desvalorização e desgaste do professor em sala de aula, onde é obrigado a conviver com situações que beiram a insanidade, a começar pelo piso salarial.  Não é aprovando um texto capenga que passará a imagem de que tudo está mudando.

Assim como todas as gestões políticas, o governo Temer gastou muito mais em publicidade na difusão da reforma do que em paciência e estudo. É evidente que o Brasil precisa revolucionar um ensino tão arcaico e nada preparatório para a vida acadêmica. Todavia, a remoção de disciplinas, a extensão da carga horária (jovem também quer trabalhar) e a falsa ideia de livre caminho a escolher passam bem longe de uma mudança positiva.

Vale pegar a exclusão de dois pilares do senso critico do aluno. Pela reforma, disciplinas como História e Geografia entram em uma lista de “cinco caminhos” para que o aluno possa escolher para cumprir 40% de sua grade curricular: linguagens e suas tecnologias; matemática e suas tecnologias (Física) ; ciências da natureza e suas tecnologias (Biologia e Química); ciências humanas e sociais aplicadas (História e Geografia) e formação técnica e profissional.

Nem precisamos dizer quais serão facilmente descartadas por puro desinteresse e falta de motivação.

O ideal seria que a proposta passasse por uma ampla discussão com Estados e municípios e suas entidades para que todos os “caminhos” fossem agregados, sem exclusão de uma ou outra matéria. No caso de História e Geografia, as disciplinas historicamente pisadas por governos brasileiros são essenciais para a formação crítica e construção dos direitos e da cidadania. Quem não conhece o passado não tem capacidade de se posicionar no presente e será massacrado no futuro.

O Ensino Médio não pode ser tratado como um latão de lixo. Mas infelizmente os Poderes insistem em jogar mais dejetos num sistema de ensino cada dia mais distante da libertação que somente o conhecimento proporciona.
*Cláudio Henrique é jornalista e estudante de licenciatura em História

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