O direito de informar frente ao famigerado ‘vou lhe processar’

Toda polêmica envolvendo a divulgação de conversas gravadas entre o jornalista Reinaldo Azevedo e Andrea Neves, irmã do senador afastado Aécio Neves (PSDB), durante as investigações do episódio JBS e os irmãos Batista — infringindo o direito do diálogo entre profissional e fonte –, mostra uma coisa bastante clara: não é só o jornalismo que está a cada dia sendo mais desrespeitado, desvalorizado. As instituições, as classes, as partes que se sentem atingidas pelo trabalho jornalístico também definham a passos largos, em especial no que diz respeito ao caráter de quem as compõem.

Hoje, qualquer personagem de uma reportagem que não fica agraciado com o que é divulgado se dá o direito de sair por aí processando este ou aquele jornalista, este ou aquele jornal, emissora de tevê, site, rádio, enfim, dono de página em rede social ou qualquer meio que seja. É a pura demonstração do desconhecimento da profissão e, principalmente, dos direitos que a ela são assegurados, mesmo diante de tanta desvalorização que a atinge.

Os fatos envolvendo Reinaldo Azevedo levaram ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) a discursarem em alto e bom som nesta sobre que o direito de informar é pertinente a quem exerce o jornalismo. Mais que isso, chega a ser até uma obrigação levar ao conhecimento da sociedade os contextos que compõem cada notícia.

E é justamente o contexto de cada notícia que mais desagrada e que mais revolta as partes “afetadas”, que, vorazmente, se apegam ao grito do “vou processar” como tentativa intimidatória de defesa aos efeitos daquilo que está sendo noticiado.

Não precisamos ir longe para depararmos com a “intimidação processual” que atinge atualmente os profissionais do jornalismo. Muitos daqueles que ainda insistem na profissão em Araçatuba, por exemplo, seja por gosto, instinto ou necessidade, para fugir das ameaças e das intimidações, na maioria das vezes preferem omitir fatos, empobrecendo assim o noticiário, do que enfrentar aquilo que é um direito. O de simplesmente informar.

E nessa questão da intimidação, o que mais espanta e a maneira como as vidas pessoais dos jornalistas são vasculhadas para que cada vez mais possam ser calados. Uma questão que deve muito bem analisada diante do que aconteceu com Reinaldo Azevedo.

Principalmente, porque, na grande maioria das vezes, os intimidadores e ameaçadores se aproveitam das funções que exercem, das influências que possuem sobre outras pessoas, enfim, do “poder” que tem em mãos, para minuciosamente mapear tudo que um jornalista faz ou deixa de fazer, tudo que tem ou deixa de ter, tudo que é ou deixa de ser, com a exclusiva finalidade de se levantar “provas” que venham a fomentar as tão manjadas peças processuais.

Na maioria das vezes, peças que são montadas mediante informações levantadas devido ao uso de aparatos públicos. Sim, tem sempre o político descontente que usa do computador da repartição que ocupa para fazer pesquisas sobre seus alvos. Tem sempre o advogado público que é consultado pelo poderoso em exercício. Tem sempre o apaniguado que se encarrega de fazer o rastreamento. Feitos ilegais como mostram os magistrados do STF em suas manifestações mais recentes.

Não que todo jornalista seja santo. Não é o que está em questão. Todo jornalista, por mais que não queiram aceitar os que se julgam contrariados, tem direitos e não apenas obrigações. Por isso, quem ameaça, quem intimida, quem tenta calar um profissional da área, deve, antes de muita coisa, pensar mais e esbravejar menos.

Não são os processos que vão acabar com uma carreira profissional. Não são os gritos, os berros, os conflitos causados pelos descontentes que vão atormentar um dever. Os processos vêm e vão. As condenações, às vezes, também. Só que a sujeira dos inconformados sempre deixará rastros que vão estar sempre à disposição de novas investigações, novas reportagens, novas publicações.

Em tempos de tecnologia aos montes, tentar calar um jornalista sempre será algo prejudicial para o lado que se julga mais forte na história. Pode acreditar. Principalmente, porque informar é um direito. E ser correto, honesto, verdadeiro e digno para que a informação seja carregada de conteúdo, é uma obrigação de qualquer cidadão personagem de uma notícia. E quando se há erros, há, antes do processo, sempre o caminho da correção. O que é, normalmente, ignorado pelos inconformados.

É o STF quem garante isso. É a mais alta Corte da Justiça quem reconhece ao jornalista o direito de exercer sua profissão como ela deve ser exercida. Simples assim.

É O QUE PENSA O POLÍTICA E MAIS.

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