‘O carnaval já não é mais o mesmo’, avalia Bittencourt

 

O carnaval deste ano chegou e passou como se nada houvesse. Onde a festa de momo ainda hoje acontece já não é mais a festa popular como já foi no passado. Comercializaram o carnaval. Virou marca. É grife nas mãos dos marqueteiros. Festa para gringo ver.

O Rio exportou o padrão carnaval luxo com suas escolas milionárias. São Paulo tentou e continua tentando entrar nesse mesmo ritmo mas sofre com a falta de recursos que o luxo exige. Os blocos e os cordões que são na verdade a origem e a essência popular sumiram e, neste ano, felizmente, reapareceram meio que de forma marginal.

O carnaval foi em sua origem festa do pobre. Manifestação da periferia. Forma de o povo sair as ruas e extravasar suas tristezas e suas dores da alma. Nesse aspecto ele ainda hoje continua fiel as suas origens. Durante alguns dias milhões de brasileiros se esquecem da bandalheira que o País vive sem segurança, sem saúde, sem escola de qualidade, sem trabalho, sem transporte público descente e sem investimentos em infraestrutura urbana.

Tudo isso sem falar na corrupção e na ladroagem aos cofres públicos. Bom para os políticos que durante alguns dias têm suas mazelas fora de foco. As redes de TVs e a imprensa miram suas lentes na nudez das celebridades como se não houvesse mais o amanhã.

Que ópio é esse que anestesia a mente e expele do corpo a dor da alma e do sofrimento para tudo voltar as cinzas na quarta-feira? Que hipocrisia é essa de percorrer os 700 metros da Marques de Sapucaí com largos sorrisos como se a dispersão fosse o triunfal pódio ou a festiva entrada no Paraiso?

É como se a vida se resumisse aos holofotes da Globo e ao sincronismo dos 75 minutos cravados pelo cronometro. Que estupida magia é essa onde todos se esquecem do sofrimento durante 361 dias para em apenas 4 noites se saciarem com as centenas de celebridades expondo seus corpos esculturais recobertos por minúsculas fantasias?

Conceito de beleza imposto por meia dúzia de comentaristas que se julgam suprassumo da intelectualidade brasileira e no direito de definir o que é bonito e o que é feio. Tudo isso contado através de sambas enredos de péssima qualidade e feitos sob encomenda para se encaixar, com construções ruins, aos enredos das escolas quase sempre comercializados a peso de ouro.

Foi isso, apenas isso, o que sobrou dos velhos carnavais. Pobre carnaval de luxo. Um lixo.

Valdevino Bittencourt, jornalista.

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