Campanha da Fraternidade: a conversão para guardar a Criação

Há 53 anos o cristianismo católico brasileiro tem a oportunidade de fazer da Quaresma uma caminhada de conversão individual e comunitária. Por meio da Campanha da Fraternidade, as pessoas, comunidades e autoridades têm a oportunidade de aplicar o jejum, a esmola e a oração não só para o interior, mas também a respeito de uma realidade coletiva que move a todos, sejam fiéis, sejam incrédulos.

Em cada período anual de 40 dias motivado pela Igreja como preparo à Páscoa, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) convida a todos para refletirem sobre temas pertinentes à realidade eclesial, econômica, política, social e ambiental de um País com disparidades enormes.

O tema desde ano é novamente centralizado na natureza, espelho visível do amor de Deus por seus filhos. No entanto, diferente do que muitos (mais por desinformação) criticam, a CF de 2017 trata  da existência da vida humana, animal e vegetal nos biomas brasileiros, com suas culturas e características naturais.

Bioma (ou ecossistema) significa o conjunto harmonioso da existência da fauna, flora e seres humanos. No Brasil temos seis biomas catalogados: Cerrado, Caatinga, Pampas, Mata Atlântica, Pantanal e mais imponente e cobiçado do mundo: a Amazônia.

Cada um tem suas particularidades, culturas, costumes e relevância, mas em comum é salutar dizer que há uma harmonia entre eles. Essa sinergia é vital para que tenhamos água, sol, chuva, frio e calor equilibrados, sendo o descontrole climático o fator mais sentido por cada um em seu dia a dia.

Cada localização tem em seus povos originários a preservação, a contemplação e a construção social ligada aos biomas. Além dos  povos indígenas, existem comunidades tradicionais e ribeirinhas com suas histórias e riquezas culturais. A preservação vai além do meio ambiente, e sim das raízes que formam o Brasil de tanta gente.

Entretanto, o pecado da ganância e do egocentrismo de grupos poderosos ameaça a harmonia dos biomas, bem como a vitalidade em equilibrar o clima e a vida neste solo brasileiro. Cada ecossistema sofre com realidades gravíssimas e que não pode ficar indiferente dos poderes, entidades e organizações civis e comunitárias. Na Amazônia, por exemplo, as demarcações indígenas violadas, o desmatamento, as construções criminosas de empreendimentos que não respeitam as características da região e a especulação territorial devastam o “pulmão do mundo”.

No Cerrado e na Caatinga, o avanço do agronegócio ameaça os dois biomas incapazes de se regenerarem frente aos desmatamentos. Além disso, as comunidades nativas sofrem com os desalojamentos e condições precárias de subsistência.

Realidade semelhante vive o Pantanal, espaço invadido pela caça e pesca predatórias, além das especulações de fazendeiros e da pecuária. Os pampas, assim como outras regiões,  também sofrem com as plantações das monoculturas, neste caso do eucalipto.

Já a Mata Atlântica, o bioma mais “urbanizado” do Brasil, perdeu praticamente 90% de sua vegetação original para o mercado imobiliário e os interesses de poderosos. Espécies já foram extintas e populações com seus direitos violados.

Portanto, a Quaresma, período marcado pela conversão de nossos pensamentos, palavras e atos, é também um solo fértil para que a comunidade de boa vontade possa pensar no coletivo e na Casa Comum. Se o meio ambiente onde vivemos e os nossos irmãos em Cristo sofrem, é ali que devemos servir também. Como salienta o papa Francisco: “Lanço um convite urgente a renovar o diálogo sobre a maneira como estamos a construir o futuro do planeta. Precisamos de um debate que nos una a todos”.

Que os muros das ideologias, crenças e indiferenças caiam em virtude da mobilização pelo bem comum. A mesa da fraternidade está novamente colocada. Quem sentará nela?

Cláudio Henrique é jornalista, estudante de História e agente de pastorais.

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