ANGÚSTIA RESPIRATÓRIA: Protozoário achado em fezes de ratos e baratas causou pneumonia rara que matou administrador

Que baratas e ratos são bichos nojentos que vivem no esgoto e transmitem doenças, todo mundo sabe. O que muita gente desconhece é que um protozoário presente nas fezes destes animais pode causar nos humanos uma pneumonia mortal, capaz de levar a óbito em poucos dias. Uma vez inalado, este micro-organismo faz um verdadeiro estrago no pulmão.

Casos como este são mais comuns na China, mas aconteceu recentemente em Araçatuba, com o administrador de empresas Orivaldo Pícollo, 57 anos, que ficou internado dez dias no Hospital Unimed Araçatuba e veio a falecer em 27 de abril.

O contato deste protozoário, denominado de Lophomona, com o corpo humano, se dá por inalação. Geralmente, isso ocorre em ambientes fechados durante muito tempo, onde estes animais passam e evacuam. Muito embora as fezes não fiquem visíveis, as partículas ficam em suspensão, no ar.

Ao entrar nestes lugares, o homem acaba inalando o protozoário, que pode atacar não só os pulmões, causando pneumonite (inflamação nos pulmões), mas também o coração, provocando miocardite, e o cérebro, levando à encefalite. No caso de Pícollo, o problema foi no pulmão.

A suspeita dos médicos e da família é de que ele tenha inalado o protozoário Lophomona durante sua estada no rancho da família, em Turiúba (a 68 quilômetros de Araçatuba), durante o feriado da Páscoa, entre os dias 30 de março e 1° de abril. Uma das possibilidades é que a inalação tenha ocorrido durante a roçagem do gramado do rancho. Além de Pícollo, seu cunhado e um amigo também tiveram pneumonia atípica a partir da estada na área de lazer, e os três ajudaram no trabalho de aparar a grama.

A outra possibilidade é que a inalação tenha se dado no interior da casa, uma vez que o imóvel fica fechado a maior parte do tempo, e no meio do mato. No entanto, outras pessoas da família de Pícollo também estavam no rancho e não apresentaram problemas de saúde.

TENTANDO ENTENDER

A família ainda tenta entender o que aconteceu. “Meu irmão acredita que o problema esteja na cerveja, pois os três tomaram várias latinhas e depois ficaram doentes”, afirma a viúva, Denise Pícollo. Ela destaca, porém, que seu marido era muito cuidadoso com a limpeza e higiene. “Ele sempre lavava as embalagens antes de ingerir qualquer coisa”, conta.

Dias após o fim de semana da Páscoa, o administrador de empresas, que trabalhava no departamento financeiro do SBT Interior, passou a apresentar febre, dores nas articulações, arrepios pelo corpo e dor no fundo dos olhos. “Ele me falava que parecia que estava levitando”, conta Denise. Ela o levou ao pronto-socorro, mas o médico que o atendeu disse que ele estava com virose e receitou apenas Dipirona para dor e febre. Dias depois, ele procurou um urologista, pois a sua urina estava escura.

Sem melhora dos sintomas, Pícollo acabou sendo internado no Hospital Unimed Araçatuba no dia 17 de abril. O diagnóstico foi uma pneumonia atípica. “O raio-X era diferente do de uma pneumonia convencional e o exame de sangue apresentava uma atividade inflamatória enorme, por isso, isolamos o paciente para protegê-lo e também os demais”, conta o médico Vinícius Nakad, diretor-clínico do Hospital Unimed Araçatuba e coordenador da UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

DESCONFIANÇA DE H1N1

Pícollo foi tratado com antibióticos, mas como não apresentava melhora, o corpo clínico chegou a desconfiar da gripe H1N1, depois descartada com a realização de exames. Foi feita, então, uma broncoscopia (endoscopia no pulmão), que recolheu a secreção do órgão para análise em laboratório.

O exame constatou a presença do protozoário Lophomona, aquele presente nas fezes de baratas e ratos. O tratamento prosseguiu com antibióticos, mas, após dez dias internado, o paciente faleceu.
“A doença tem uma evolução muito rápida; é uma pneumonia elevada à décima potência”, compara o médico Vinícius Nakad. “Só o antibiótico não reverte o processo, pois as complicações da doença já estavam instaladas”, complementa.

A doença deixou os pulmões de Pícollo com grande quantidade de líquido, criando uma barreira líquida entre o alvéolo e a corrente sanguínea, impedindo a oxigenação. Isso ocasionou o que é chamado de Sara (Síndrome da Angústia Respiratória do Adulto), por isso, ele foi mantido em coma induzido e colocado para respirar por aparelhos. Além da pneumonia, apresentou também inflamação nos pulmões.

SEM ESTATÍSTICAS

Nakad ressalta que são pouquíssimos casos de pneumonia provocada pelo protozoário Lophomona registrados no mundo, por isso, não há dados estatísticos sobre a doença. O que se sabe é que o índice de mortalidade é acima de 50%, sendo que a maior incidência é na China.

Médico há 22 anos, ele disse que só viu dois casos deste tipo de pneumonia, os dois com óbito. Nakad está acompanhando, a distância, os outros dois pacientes que apresentaram pneumonia atípica após a estada no rancho em Turiúba com Pícollo. O estado deles não foi tão grave como o do amigo que partiu no dia 27 de abril. “A evolução varia muito de acordo com a imunidade”, diz o médico.

Ele alerta, no entanto, para a importância do uso de equipamentos de proteção individual ao roçar a grama, como máscaras. Outra dica é manter o ambiente limpo e arejado, sempre. “São medidas que podem evitar problemas como este”, alerta.

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